O primeiro encontro


A pessoa que inventou o Tinder com certeza consegue comprar Rivotril sem receita, porque chega uma época da vida em que a gente perde a mão nesse tal de “primeiro encontro”.

Sofreríamos, todos, de polidctilia se fôssemos contar as vezes em que a gente tentou em vão controlar a ansiedade e não parecer à beira de um ataque de nervos ao encontrar a pessoa num botequim qualquer em Botafogo.

O cérebro já sabe da cilada e sabota a gente.
Mas é para o nosso bem, eu creio.

A gente troca meia dúzia de palavras meio atravessadas e decide que não só o silêncio precisa ser constrangedor, mas tudo em si deve ser instrumento de nossa vergonha.

Invariavelmente todos os nossos segredos mais íntimos, as conjugações incorretas de todos os verbos, algumas pedras nos rins vêm à tona exatamente no momento em que seria perfeito ficar calado e apenas acenar para o garçom trazer a conta.

A gente idealiza tanto esse momento que algumas pessoas até questionam, no campo da ética, se é de bom tom dar ou não no primeiro encontro.

Gente, faça-me o favor, eu nem sei se vou sobreviver ao primeiro encontro.

Esses dias eu tive mais um deles e deixei meu cardiologista ciente que eu poderia ter um pequeno AVC nas próximas horas.

Botequins lotados, sessões de cinema esgotadas, a incapacidade humana de se jantar num restaurante sem reserva, os meteoros que insistem em não cair para aniquilar a humanidade quando se é mais preciso.

É nesse momento que você entrega tudo na mão de Deus e decide fazer um programa caseiro com aquele ser humano que você acabou de conhecer e, mesmo não acreditando em uma força maior que rege o universo, não vê mal em abaixar a cabeça e fazer uma pequena oração para que na manhã seguinte você não acorde numa banheira cheia de gelo e num corpo vazio de pâncreas.

A gente se esbarra no sofá.
Sabe, ele até que é legal.

A grana é curta e não dá pro telecine.
Deixa pra lá, SBT nunca me deixou na mão.

Casablanca. Dublado. Quase no fim.
Ele diz: “a gente podia pedir uma pizza”.

Calabresa. Com cebola.
“Posso tirar o sapato?”

Às vezes as coisas dão certo e a gente não vê.
Velhos conhecidos de uma noite só.

A gente engrenou uma conversa meio boba, duns livros que a gente leu em comum.

Deu certo, mas perdemos o fim do filme.
Não lembro ao certo como era, mas terminava meio assim:

– But what about us?
– We’ll always have… pizza.

Aloe Vera é correspondente internacional do Babado Certo no Rio de Janeiro.  Escreve sobre a cidade (que só tem viado), as distâncias de Vitória e as dores e delícias de encontrar Renata Sorrah na fila do cinema. Entre em contato com ela por meio de mesa branca, baralho cigano ou do e-mail a.loevera@outlook.com.

Você não é Césio 137, mas seu brilho me contaminou


Olha, eu percebi que eu tava um pouco desaparecida quando eu me olhei no espelho e vi que tava a cara da Mari Alexandre.

Por onde anda a Mari Alexandre, um beijo para Mari Alexandre.

Olhei para meu rosto calejado pela pouca exposição midiática e me perguntei: morri ou estou na Record? Mas antes que eu fosse condenada a ser protagonista de uma microssérie baseada na bíblia e entrasse naquele looping constrangedor de ter que fazer par romântico com Maurício Mattar, eu resolvi voltar para vocês.

ADOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOORO!

Acontece que eu estava numa cremosa crise alérgica que deixou meu nariz tão constipado que quase tive que transformar a minha perna mecânica na máscara do Kabal, de Mortal Kombat, pra ver se eu conseguia respirar direito. E a melhor parte é que eu tô assim há mais de duas semanas e não melhoro em nada. Quer dizer, descobri hoje que tava tomando um anticoncepcional no lugar do antialérgico.

Está finalmente explicado o porquê de eu ficar dublando You Make Me Feel a Natural Woman na condução para casa durante toda essa semana.

Aliás, teve uma vez que eu confundi meu anticoncepcional com uns dois m&m’s que tavam perdidos na minha necessaire. Sorte que ninguém me come, porque senão eu já tinha parido.

Nessa loteria da vida chamada genética, tenho tanto alelo recessivo que eu sinto que esse símbolo capixaba foi gerado no meu útero.

Mas então, eu estou aqui hoje reunindo o que resta das minhas forças pra falar com vocês de um tema muito importante em nossas vidas, o Lulu. Claro que a galera do deixa disso já pegou seus extintores de incêndio para apagar nossas bacurinhas em chamas com a possibilidade de avisar a todas nossas amigas que aquele desfrutável pedaço de mau caminho te elogia com trechos de canção do Exaltasamba.

Olha, meu amor, vou te dizer uma coisa. Se homem não fosse objeto, a gente não tinha esse estímulo de dar nome pra vibrador.

Já que não posso avaliar o Tatuapu, uma vez que não se reconhece a necessidade de um pequeno pedaço de poliestireno explorador de mucosas ter o seu próprio perfil no Facebook, vou me divertindo avisando a humanidade do recorrente risco de se gastar tempo e energia em conquistar uma pessoa que tem a capacidade de usar tênis com meia preta.

Três meses de trabalhos intensos de jardinagem para deixar sua vulva com uma belíssima cobertura capilar no formato das iniciais do boy pra na Hora H descobrir que ele usa cueca asa delta vermelha.

Gente, vamos combinar. A coisa mais pesada que tem no Lulu é a denúncia de que o boy curte o Romero Brito. É grave: sim. Deveria ser considerado crime hediondo e, portanto, inafiançável: com certeza. Mas, a gente sabe, né. Coisa de hétero. Se essa aplicativo tivesse surgido na mão de alguma bicha venenosa, garanto que ia ter uma área só pra você indicar a cor, pastosidade, viscosidade e volume do cheque passado pela gay avaliada em questão.

Chocante, mas não tão chocante quanto as cenas de amor de Leleco e Muricy em Avenida Brasil.

“Ah, mas não é legal objetificar ninguém, Tchynna”. Até que eu concordo, mas o Lulu tem uma vantagem sensacional: ele simplesmente rotula e classifica exatamente quem geralmente costuma ser o fio da balança para se rotular, classificar e separar as pessoas, veja que legal. Acho que não vejo homens cisgêneros e heterossexuais sendo objetificados, veja bem, desde a Convenção das Bruxas de 1922, quando eu e minhas amigas invadimos a Semana de Arte Moderna e transformamos Oswald de Andrade no Abaporu.

O que importa, gente, é a beleza interior.

Aliás, queria agradecer muito as pessoas que contribuem para que a internet seja um grande desafio de pegar jacaré numa enorme pororoca de chorume, porque já criaram um que os homens avaliam as mulheres. O que eu tenho pra falar sobre isso? Tá feio, tá escroto, tá pior do que o remake de Guerra dos Sexos. Hétero não entende nada de vingança.

Garanto que se aquela menina de Revenge, a Emily Thorne, fosse lésbica, o seriado ia ser bem mais legal.

Enquanto vocês se matam aí nos comentários porque, claro, viado adora uma polêmica, eu vou continuar aqui no meu cursinho de programação por correspondência do Instituto Brasileiro pra ver se a gente adianta o nosso lado e cria aquela versão do aplicativo para o universo homossexual.

Vai ser tanta discórdia que o aplicativo rapidamente vai se tornar um infalível método de controle populacional.

PS.: Não tenho nada contra os héteros, tenho até amigos que são. Não é preconceito, é só minha opinião. :*