O peso da passividade


Que filosófico esse título, mas vai me dizer que não dá uma vontade louca de saber de qual assunto se trata?

Pois é, dá, e o assunto de hoje se parece muito com o formato dos posts do Kooriosidades, mas se eu não mudar a plataforma, eu vou acabar transformando todos os posts de discussão em posts do Kooriosidades. Elas me perguntam de um tudo!

Por isso, resolvi aproveitar a história de mais um leitor, não pra ajudá-lo (isso já fiz respondendo o e-mail individualmente), mas pra entrar numa discussão que me parece incomodar várias bee’s. Vamos ler:

Conheci um carinha de Vitória a pouco mais de um mês, estou morando a pouco em vitória.

Mas enfim, o cara sempre ficava falando que era ativo e tal, e eu dizendo que não iria dar certo porque só sinto excitação em ser ativo, já tentei ser passivo, mas não dá, não tenho tesão, sabe como?

Então saímos e no primeiro dia ele já queria transar, então fomos para meu apê, e descobri que ele é muito passivo! Estamos namorando agora, e com um mês de namoro ele fica se gabando para os amigos de ser o ativo da relação, e eu fico como o passivo, pois não tenho amigos na cidade e nunca namorei ninguém aqui.

Isso esta atrapalhando muito a relação, ele fala que por ser o fortão e ter cara de macho, “tenho que aceitar isso”

Penso naquela velha historia de gay passivo que não assume, ele diz: “Eu estou sendo passivo com você, nunca fiz isso com ninguém você é o 1º”.

Resumindo, o que devo fazer para essa criatura se aceitar, estou deixando de ter tesão na relação, não sei o que acontece com essas bichas que gostam de esconder a opção, “versátil mais passivo”, “versátil mais ativo”

Não entendo isso, ou você gosta de meter ou gosta de dar. Mas gosto muito dele, pois é um cara muito legal e não queria terminar por bobagens , não quero que ele fique gritando para todo mundo que é passivo, só queria fazer ele entender e aceitar.

O meu sentimento por essa pessoa é duvidoso, por um lado sinto um ódio eterno por ele ter convertido mais um ativo à passividade, por outro acho uma graça que bata o pé pela sua atividade num mundo dominado por edis nervosos.

Mas não é disso que eu quero falar, sempre tendo a falar de sexo, dessa vez quero falar de comportamento. O problema do rapaz é com o namorado que não se aceita passivo, mas o próprio ao ser taxado como tal se sente incomodado e até cogita terminar o relacionamento.

Como é que ele espera que o outro, sempre acostumado a ser ativo, aceite tão facilmente o novo rótulo se nem ele, com um rótulo de mentira, fica à vontade? E por que um rótulo de passivo incomoda tanto, se um depende do outro pra existir, afinal, se não tiver quem só dê, não tem quem só coma, certo?

Errado! Tem os “versáteis”, eles são a maneira que muitos gays machistas inventaram para se livrarem do estereótipo de passivo. Não que os versáteis verdadeiros não existam, existem sim e são muitos, mas em meio a eles você vai encontrar uma infinidade de gays como o namorado do rapaz do e-mail.

Eu disse que era ativo? Te enganei!

Sobre versatilidade, leia o meu outro post CLICANDO AQUI

Sempre que vemos um casal gay temos o hábito de determinar quem é o ativo e quem é o passivo da relação, é natural que façamos isso, e pouco importa se a mais feminina disser que é o ativo, na nossa cabeça ela será a passiva e ponto final.

Isso me lembra muito casais heterossexuais sobre os quais paira um tabu sobre o que fazem na cama, geralmente isso acontece quando a esposa faz fio-terra no marido. Só ele fala de sexo, e ai dela se fizer algum comentário envolvendo dedo, ânus ou diferença de potencial (ddp).

Sobre o casal do e-mail, observem o quanto ele quer que o outro assuma sua passividade, não só porque ele é o ativo, mas também porque, palavras do próprio texto: o outro “fica se GABANDO que é o ativo”.

Se gabando que é o ativo… por que se gabando e não apenas dizendo? Porque somos machistas, todos nós, não só os héteros. Pra todos os homens latinos o fato de parecer ou agir, o mínimo que seja, como uma mulher, é humilhante para a sua identidade masculina.

Até mesmo alguns homens muito masculinos, quando se assumem passivos, tentam o tempo inteiro se desvencilhar da ideia feminina do ato, usando as famosas gírias “Brow, Brother, Fera, professor Xavier, Jean Grey, entre outras”.

Tudo isso com a intenção de assumir a preferência passiva na cama, mas tentar dizer que ainda é ‘homem’. Uma grande besteira, como se ser homem se resumisse a usar o pênis como uma arma de dominação.

Já perceberam que quando uma mulher “age como homem” ou se veste com roupas masculinas ela é vista com respeito e sensualidade, mas quando um homem se veste com roupas femininas é visto mais como uma figura de humor? Ou vocês achavam mesmo que hétero tem tesão em lésbica só por causa do ménage à trois? Nada disso!

Isso acontece porque o homem, na nossa sociedade machista, é o exemplo de força e superioridade. E como todos os animais procuram como seu parceiro sexual aquele que demonstra ser o mais poderoso do bando, é de se esperar que a mulher com características masculinas seja a mais atraente, pois ela representa o que consideramos superior.

Em contrapartida, imaginem um homem no lugar da Dama de Ferro (Margaret Tatcher) tomando as mesmas atitudes dela, mas se perfazendo de características do universo feminino, assim como ela fazia com o universo masculino…

…vocês acham que ele teria o mesmo êxito em conquistar o respeito de uma nação?