Por que os gays têm medo de envelhecer?


ATENÇÃO: Antes que encham o meu saco, nada aqui é regra, só uma especulação filosófica. Você pode ser exceção sem precisar desqualificar meu texto dizendo isso nos comentários.

Ninguém tá nem aí pra sua alma jovem

Ninguém tá nem aí pra sua alma jovem

Envelhecer, do ponto de vista psicológico, é uma delícia. Você ganha mais experiência, fica mais esperto e até no sexo tem consequências maravilhosas: Quem já trepou com homem mais velho sabe a eternidade que eles conseguem segurar o orgasmo.

Mas por que, mesmo assim, os gays (principalmente os passivos) têm pavor de passar dos 30 anos?

Desculpa, gente, Rita Cadillac está bravíssima com esse post sobre velhice

Desculpa, gente, Rita Cadillac está bravíssima com esse post sobre velhice

article-1393400-0C5B2A8200000578-139_306x705Nós já sabemos que o meio gay masculino segue um padrão hegemônico de beleza: Homem forte, jovem e másculo. Isso porque esse ideal é o que mais se aproxima do que se entende como homem heteronormativo.

O homem heteronormativo é o padrão que atrai a maioria dos gays por um motivo simples: Fomos criados por héteros (ou por pais gays criados por héteros, caso você seja filho de gays) e estamos inseridos numa sociedade hétero. Desse modo, nossa noção do que é ser homem é baseada na visão deles, nos valores deles.

Por isso, não é de espantar que absorvamos esse padrão como ideal.

Até aí tudo bem, isso não é novidade pra ninguém.

Antes de começar a falar do cagaço que vocês têm de ficar cacuras, vejam a matéria abaixo:

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Sexo casual causa depressão? Lógico que não!

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A culpa não é do sexo casual. Desde muito novos somos submetidos a um ideal de felicidade que envolve constituir uma família.

Não importa pra onde você olhe, seja filme de romance, novelas e até mesmo em propaganda de margarina, vende-se a felicidade enlatada sob a forma de cônjuge e filhos.

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Eu e meu boy vendo filme

“Felizes para sempre”, sempre no plural.

Sendo assim, é de se esperar que uma pessoa que somente viva relacionamentos de uma noite (ou que não faça sexo com ninguém) se sinta longe desse ideal e, portanto, sinta-se depressiva. Não é uma regra, mas é a maioria.

Vocês amam esse filme, né? É UMA MENTIRA!

Vocês amam esse filme, né? É UMA MENTIRA!

Voltando a falar dos gays…

Enquanto o homem heterossexual vê sua vida sexual começando aos 30 anos, o gay fica cada vez mais desesperado quando essa idade se aproxima.

Se o gay sabe que o padrão de beleza exige que você seja jovem para ter maior probabilidade de ESCOLHER o namorado ideal, daí vem o medo de ficar velho.

[As vezes que você ficou offline quando o boy disse ter mais de 40 não me deixam mentir.]

Sim, escolher, ninguém pretende sobrar como a última opção e nem quer ser obrigado a ficar com o primeiro que aparecer.

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Eu fico, Max

Até a puta só foi feliz depois do casamento

Até a puta só foi feliz depois do casamento

Não é o medo de ficar feio, até porque a gente sabe que tem muito homem de 40 aí com cara de 20. É o medo de não conseguir mais pegar quem quiser e ter menos chances de arranjar um marido para casar e ter filhos, uma vez que o padrão exige a juventude.

Não é à toa que muito gays com mais de 30 anos se arrependem amargamente de não terem agarrado as oportunidades de relacionamento que tiveram na juventude. Na hora bate aquele desespero diante da possibilidade de morrer sozinha e seca.

Enquanto isso, hétero nenhum está preocupado… nenhum homem hétero, né? Isso porque a sexualidade do homem hétero está vinculada ao poder aquisitivo, mais provável de ser atingido depois dos 30.

E for passivo? Coitadas, piorou!

Com a competição desgraçada que existe entre nós, é lógico que quanto mais velho você ficar, mais você se afasta do padrão e menos opções de escolha você vai ter.

Sem contar a ideia sexista de que o passivo deve transbordar juventude para ser atraente, assim como acontece com as mulheres. As pobrezinhas quando envelhecem são tão execradas que existe uma categoria só pra elas: “Mariconas”.

Por outro lado, já vi inúmeros ativos dizendo que só vão pensar em relacionamento depois dos 30. Assim fica bem óbvio como o machismo afeta nossas relações, não é verdade?

A espada da realidade, na sua cara!

A espada da realidade, na sua cara!

E vocês? Por que têm medo de envelhecer?

Está sozinho? A culpa pode não ser sua


Hold on, bitch! Se você é uma escrota, passional e ciumenta, esse artigo não justifica a sua solidão.

Vamos repensar o nosso comportamento antes de esbravejar com os outros.

Na década de 90 só dava ela!

Mas se você é uma fofa, educada e tranquilíssima beesha, a culpa da sua solidão pode residir no novo estereótipo dos gays.

Novo estereótipo, Max? Sim, novo! Observaram que aos poucos a bicha pintosa deixou de ser o exemplo de gay e agora os valores são outros? Vamos pensar um pouco…

Aqui no Brasil, no final do século passado, as beeshas se resumiam nas caricatas, leathers e Homens-que-comem-homens-mas-só-quando-falta-buceta. Observem que os exemplos de gays sexualmente atraentes eram Cazuza, Ney Matogrosso e os boyzinhos dessas bandinhas pop que estouraram na mesma época.

Onde estavam as Barbies? Não estavam, ainda! As Barbies e a geração saúde surgem nessa transição dos anos 90 pros 2000, e é disso que quero falar.

Os gays hoje, numa tentativa de fugir do estereótipo da beesha que só sabia ser cabeleireira e estilista, criaram um padrão no qual você deve atender a vários requisitos para ser considerado o gay ideal, o gay que mais foge do paradigma daquele gay que morreu de Aids quando esta estourou no país (o gay de porta de discoteca: degenerado, afetado e promíscuo).

Esse gay é rico, bonito, inteligente, bom de cama, bilíngue, másculo e musculoso. Sendo esse másculo e musculoso as principais características visuais que destoam do gay magro e feminino que era visto logo de cara como “aidético” nas décadas de 80 e 90.

Aliás, já observaram que basta uma bee ser muito magra que as pessoas logo fazem piada sobre ela estar beijada pela tia?

Pois é, esse novo padrão é inalcançável para a maioria absoluta das pessoas e, por mais que você tente fugir desse estereótipo, as possibilidades de encontrar um parceiro para esse gay que atende à maioria das características é bem maior em relação ao resto.

Não vamos ser hipócritas e julgar todos que atendam a esse padrão, estética privilegiada e riqueza também podem vir de berço.

E quando não vêm? Dentre os héteros também existem padrões de parceiro ideal, mas eles tendem a abdicar de uns em detrimento de outros: É a mulher Raimunda, é o pobretão gostoso ou o careca rico. Quem consegue o pacote completo é considerado sortudo, mas quem não é o pacote completo também não fica sozinho.

E por que você, beesha bonita e pobre só consegue foda de uma noite e você beesha rica e feia só arruma boy toy que te liga quando seu salário bate na conta?

Simples, como nossa cultura é ainda muito jovem e estamos nos adaptando aos novos padrões, todo mundo quer o ‘melhor’, e se não consegue prefere ficar sozinho SE transformando nesse melhor para atrair outros melhores como você: É a teoria do Clone Gay.

Observem uma boate no século passado:

E uma boate atualmente:

A homogeneidade chega a assustar, não é verdade? E cada boy musculoso ali sem camisa só está musculoso e sem camisa porque batalhou para se tornar aquele ‘melhor’ que citei lá em cima. Por isso ele anda sem a camisa, pra vender o produto assim como a racha malhadora usa vestido curto pra mostrar os pernões.

Isso gera um círculo vicioso, porque os gays que se tornaram esse melhor não querem perder o seu tempo com gays que não atendam a esse padrão, forçando os outros gays a também buscarem se encaixar no padrão para conseguir os clones que desejam.

Afinal, não é porque você não faz parte do padrão que você não vai ser seduzido por ele. Principalmente com a mídia reforçando sempre, com flyers de boate e propagandas de turismo GLS, que o gay que todo mundo quer é esse:

Defeito

Padrões de beleza são assim chamados exatamente pelo fato de serem um ideal de beleza de um grupo, mas isso não significa que todo esse grupo esteja encaixado nele, principalmente num utópico como esse.

Nosso grupo sempre foi conhecido pela diversidade, por aceitar a todos… mas é só conhecido mesmo, porque a realidade não é muito diferente da feminina quanto à manutenção do seu corpo para servir o desejo estabelecido pela maioria (vá pra porta da São Firmino e veja se não estou certa).

Pintosa quebrando louça com pintosa, urso com urso, discreta com discreta, drag com drag, bombada com bombada? Já passou da hora de misturar.

E aí? Qual a opinião de vocês sobre esse novo esterótipo de gays que domina o meio LGBT? Em que ponto ele deixa de ser saudável e se torna uma obsessão?