A ética: onde está?


Existem regras, acordos tácitos, entre nós gays que deveriam sempre ser respeitados. O gay  tem suas coisinhas, seus espaços, que deveriam ser preservados sempre por outros gays. Existe uma ética!!!

Me explico. Esses dias dei uma festinha aqui em casa, coisa fina, jantarzinho e tal. Entre as pessoas algumas bichas que estavam fervidas e doidas para ir a boate. E foram.

Quando terminou a festa meu companheiro veio me falar: “Acho que fulano fez a chuca aqui em casa”. “O QUE?!”. Fiquei indignado, uma falta de respeito!

Agarrei ódio na bicha. Como assim ela vem na casa da gente e usa a NOSSA chuca?! Não, gente, não é egoísmo, não é falta de fraternidade com as irmãs. É questão de higiene! Sabe-se lá onde andou o edí daquela gay. Esquistossomose taí, mona! Passei o dia todo faxinando a chuca: deixei de molho na Q’Boa, esfreguei BEM com bucha de pelos duros e passei álcool em gel bactericida. Deixei tudo higienizado. A chuca parece que é nova. Mas a revolta ficou: não dá pra deixar o coração de molho.

A chuca de uma bicha é sagrada!

Sei que fazer chuca fora de casa sempre é o maior problema do viado (a chuca de garrafa pet taí como prova), mas há um acordão entre nós de manter o espaço prioritário da bicha dona da casa, né? Eu já sofri muito com chuca fora de casa, sempre tenho medo de pegar uma super bactéria que coma meu edí todinho fazendo ele virar uma enorme cratera gangrenada. Uma vez, num hotel, tentei retirar o chuveirinho para usar só a mangueira e inundei o banheiro do hotel todinho, mor mico, tive que chamar o boy para me ajudar, desligar a água todo do quarto e o escambau. Só depois pensei que deve ser mais seguro usar com o chuveirinho essas chucas “públicas”, pois toda bee deve ter a mesma ideia, tirar o chuveirinho e ninguém usa com. Sei lá! Apesar de que tem cada louca no mundo, né… O vinhádo que veio aqui em casa taí para provar que não estou mentindo.

Como lidar?

Hay que endurecer, pero sin perder lo truque jamás


Parou o recalque que agora eu vou mandar o papo reto: tá dando pinta, tá fabulosa? Então manda um beijo pras travestis :***. Pode ser Candy Darling, a travesti que foi musa do Velvet Underground, grupo orquestrado pelo magnânimo Andy Warhol nos anos 60; para Mina Caputo que se aventurou no heavy metal dos anos 80; ou mesmo pra Micheline Mountreuil, primeira transgênero a se candidatar a um cargo político nas Américas.

Passada com o cisrecalque das bonitas

Seja travesti, seja herói. Chaz Bono, Rogéria, João W. Nery, Laerte, Thomas Beatie. Enquanto você estava aí achando que bastava colocar uma arroba ou um x para eliminar as diferenças, esse povo todo estava aí nas ruas, sangrando na própria carne isso aí mesmo que a gente chama de gênero. Não só eles, mas essa travesti que faz ponto na esquina da sua faculdade e que você tanto menospreza.

Saiba que boa parte dos seus direitos, meu amor, foi aberta na base de muita gilete na gengiva.

É ele que sente, na pele, a violência que você, com sorte, só vai conhecer nas manchetes de jornal. Poucas chances, marginalizadas, tendo quase como opção exclusiva a prostituição. Ser gay, meu amor, é mais que dar pinta: é fazer resistência. É ser a resistência. Ser travesti, ainda mais no Brasil, é fazer do próprio corpo uma revolução.

Então, meu amor, se pegue na coreografia e vá em frente: manda um beijo pras travestis. Mais que beijo, mande cidadania. Mande respeito, mande dignidade. Porque, meu amor, sem travesti, você não é ninguém.

Transbeijos transfeministas
Tchynna Turner.