O dia em que uma divindade esteve entre nós


Muita gente achou que o tempo enlouqueceu atoa nesse último final de semana. Mas não. Era Iansã agindo trazendo para nossa terrinha a diva das divas brasileiras: Maria Bethânia. Que show, cabixabas, que show! ela não vinha pra cá desde 1998!!! Tô aqui contando como foi só pra sambar na cara de quem quis, mas não foi – um beijo, Max!

O público que lotou os dois dias no Teatro da Ufes eram basicamente de bichas, sapatões, velhos, pedantes e uns 3% de “outros”. Cláro que a grande maioria englobava pelo menos 3 das categorias citadas. Teve umas beeshas que apareceram por lá que há vinte anos já eram dadas como mortas. Este público eram de pessoas que não apenas amavam a cantora baiana, mas de pessoas que exerciam um verdadeiro culto a ela, no sentido espiritual da coisa.

Mas não era pra menos. Estar num show de Bethânia é de fato uma experiência religiosa, onde o palco é o altar e ela uma sacerdotisa invocando os espíritos dos maiores poetas que escreverem em língua portuguesa. Meu boy, que é um desses adoradores da Maricotinha, tremia, tremia e tremia antes do show. e ele não estava sozinho. Todas as pessoas pareciam estar a beira de um avc de tanta expectativa. Quando soou o segundo sinal, ele já estava chorando.

Terceiro sinal! Entraram o maestro e violoncelista Jaime Alem, seu fiel escudeiro, e o percussionista que a acompanha na apresentação. Eles introduziram a música. Daí o tempo parou para a abelha rainha  entrar no palco. as pessoas aplaudiam como se a vida delas dependessem disso. Uma gay aplaudiu de pé, mas ficou sozinha, desacompanhada. Ela já entrou rasgando com Iansã! daí o negócio já ficou energizado.

Não tem como eu explicar o espetáculo em sua parte sensível, pois isso só sentindo. Mas racionalmente é uma série de colagem de textos e trechos de poesia e prosa recitados com músicas intercaladas. Uma coisa incrivelmente linda e delicada. ela começa declamando coisas cuja a temática é aprendizado de poesia e sua importância para a formação do indivíduo. daí vem um bloco de textos que trazem o trem como tema. Depois fala sobre os rios do sertão, em especial o São Francisco. e também sobre o sertanejo. e sobre o sagrado e sobre o profano. Em alguns poemas as pessoas respondiam “Amém!” no final da récita. Só pra vocês terem noção ela recitou o Poema do Menino Jesus. Esse texto é tão lindo que até eu que sou ateu fico todo arrepiado como um gato assustado quando ela recita o verso “despe meu corpo cansado e humano”. A gente quase se converte de tão lindo! ela recitou um dos poemas que mais gosto e que sei praticamente de cor que é “Os sapos” de Manuel Bandeira. No repertório textos de Álvaro Campos, Clarice Lispector, Mario de Andrade, Ferreira Gullar e muitos outros.E claro, Fernando Pessoa, que ela tanto ama. ela o chama de “meu poeta”. Mas o mais lindo e que me surpreendeu foi o trecho de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. PUTA QUE PARIU! de rasgar! A interpretação dos textos é tão perfeita que chega uns momentos que você não sabe se é poema ou se é ele falando. Como ela diz, ela empresta seu corpo e sua vida para dar vida aos poemas e o faz como ninguém!

Só tirei uma e SEM FLASH!

O show só não foi perfeito por conta do público. Sei que não por maldade, mas por falta de costume cometeu uma série de gafes. DEIXARAM O CELULAR TOCAR, acredita?! E ficavam tirando um milhão de fotos!!! COM FLASH! Você que vai em espetáculo em teatro, posso te dar uma dica? A primeira foto saiu ruim, você acredita que algumas das outros 1.475.849 fotos que você tentará tirar vão sair melhor? Não Vão! E você ainda estará estragando a fotografia do cenário e incomodando todo mundo! E outra não se aplaude no meio de todas as peças. A etiqueta diz para que se espere terminar o bloco para aplaudir. Se não a gente perde um pedaço da apreciação, entende?

Mas a grande cena de humor da noite foi uma bee que no final do show foi até o palco arrastando sacos enormes que pareciam aqueles de exportação de café. Daí quando Bethânia foi agradecer a beesha começou a jogar pétalas de rosas. Lindo aquela chuva de pétalas vermelhas… Só que a gay deve ter gastado todo o salário em flor e não parava nunca mais de jogar flor. E era tanto, mas tanto que a bee começou a jogar na cara da cantora chumaços de flor violentamente. Bethânia saiu correndo do palco com aquele muco cheio de rosa parecendo uma árvore de natal estilizada. Lembrou aquela cena d’Os Normais…

…e depois de jogar, jogar e jogar e nunca acabar a beesha jogou as sacolinhas do carone com as pétalas no palco, cagando todo maiô. Na lama a gente ria de chorar lembrando disso.

Ao contrário do que muitos pensavam, ela foi de uma delicadeza e gentileza surpreendentes. Uma aula de ser diva: “Obrigado, senhores!”, ela agradecia demonstrando um respeito com o público de fazer chorar.

Enfim, alma lavada! Segunda-feira leve e vontade de nunca deixar perder essa coisa boa que ficou aqui dentro.