Análise semiuótica de clipes fechativos: MARRY THE NIGHT (Lady Gaga)


Mais uma vez está de volta uma das seções mais amadas e raras deste blog, aquela em que desvendamos as mensagens por trás de todo o hermetismo desta moderna arte audiovisual que são os videoclipes, nossa querida Análise Semiuótica de Clipes Fechativos!  Hoje trazendo com exclusividade a análise frame-a-frame do novo clipe de Lady Gaga: Marry the Night, o mais longo (13:51) e o mais auto-biográfico de todos.

O clipe conta a história de nada mais nada menos do que da morte de Stefani Joanne Angelina Germanotta, e/ou do nascimento da mommy monster Lady Gaga! Vejamos:

O vídeo começa com Gaga sendo conduzida até a enfermaria de um hospital psiquiátrico. No texto ela deixa claro que é a história de um momento de sua vida de maneira estilizada, ela brinca dizendo que foi assim, porém sem a última coleção da Calvin Klein. Nas entrevistas, Gaga afirmou que esse clipe conta a história de um dos piores momentos de sua vida: quando foi retirada de sua primeira gravadora Island Def Jam e viu seus sonhos de ser uma superstar se desmoronando! O cabelinho preto deixa evidente que aí ela ainda era Stefani.

Na maca da clínica, Stefani tenta acender um cigarrinho, mas toma um coío da enfermeira. Quem é fumante sabe que não é fácil ficar sem. Max que o diga…

Momento emoção: a personagem desaba para a enfermeira dizendo “Eu queria ser uma estrela!”

Stefani coloca a toca do hospital de ladinho como se fosse uma boina. A câmera vai se afastando e mostrando todo o hospital. Um piano toca a introdução de um tema erudito acompanhado de uma risada histérica. Um clima de insanidade toma conta de toda a cena: Gaga era parida!

Ainda com o mesmo som de piano ao fundo, vemos a personagem dançando balé. Essa cena tem dupla função: uma é a de memória, como se lembrasse das aulas de balé clássico e piano que fez, como quem se questiona de todo o esforço realizado em vão para chegar em certo objetivo. A outra é metafórica, uma menção ao filme Cisne Negro em que  personagem se destroi e “morre” enquanto perfeição para surgir poderosa com seu lado sombrio, uma boa alegoria a história que será narrada.

Este é o exato momento em que a vida começa a desmoronar. Nua, na cama, recebe a ligação de seu diretor gongando-a e a excluindo das atividades. Ao mesmo tempo, em outra cena, ela toca piano – também nua – dando todo o tom dramático da situação. Tadinha!

Daí a racha surta! Quebra tudo, rasga seus trabalhos, come como uma louca… Tudo alternado com uma música rápida e cortes ligeiros das cenas das aulas de balé demonstrando o devaneio da personagem frustrada com o “não” que a vida lhe deu.

Silêncio! Agora vemos a personagem na banheira pintando os cabelos de verde. Essa cena é muito importante, pois ela é a grande metáfora da mudança de rumo na história de vida da personagem: é nela que acontece a morte de Stefani e o nascimento de Gaga! É aqui que se inicia a grande reviravolta! Aliás, a figura da “banheira” está em vários trabalhos da cantora lembram disso, disso e disso? Agora faz sentido, né?

Ao fundo ouvimos, ainda acapella, os primeiros versos da música “Marry the Night”.

Então chega aquele momento que só quem já se montou sabe como é, o momento de encarar o mundo. Gaga se apresenta as pessoas! Ela aparece em um grande salão toda trabalhada nas tachas, nos strass, nos óculos exóticos, na make bapho, enfim, no ladygaguismo, e é observada DE CIMA por várias pessoas. Sabe-se que na linguagem audiovisual, quando um personagem é visto de cima, ele está sendo ou se sentindo diminuído, humilhado etc. É, portanto, o retrato do julgamento das pessoas que te olham condenando, rotulando-te de esquisito, de estranho. Engraçada a carinha de constrangimento da cantora e “para descontrair” ela fazendo aquele sinal que nós fazemos pro boy quando a gente quer fazer um keti neli.

Escurece. A noite, que é tão cantada na música, chega. O cenário é Nova York em estado de caos, com carros incendiados e espalhados pela rua e Gaga está num deles. Fuma, passa batom…  respira e se fortifica com os ares noturnos.

Adoro divas que fumam nos dias de hoje, pois fumar – com todas essas políticas de combate ao fumo e discurso de boa saúde que é veiculado – tornou-se uma grande subversão! Te amo, Max.

Os carros explodem e lá vem ela como um fenix ressurgida das cinzas! Ela dança e canta passionalmente em meio ao fogo dos carros e a água da chuva (interessante contraste). Seria como a clássica cena de “E o vento levou”, em que a personagem jura nunca mais passar fome, porém a promessa, neste caso, é a de ser uma das mais importantes estrelas da década custe o que custar!

Como dizia Ford “O fracasso é a oportunidade de começar de novo com mais inteligência e redobrada vontade”. E lá está nossa heroína de volta aos ensaios de dança, certa de que o sucesso só vem com muito trabalho.

Aliás, essa cena também passa a coreô todinah do refrão. Quem já tá doida pra aprender ela todinha pra arrasar na muatchy grita: “EU SOU BUNITAAAA!”. Vengentchy:

♫”Ma ma ma marry, ma ma ma marry, ma ma ma marry the night!”♪

Tá babado!

Ainda na aula de dança, Gaga sofre um bullyingzinho de alguns, faz amizades, ajuda uma companheira que cai a se levantar e arrasa com a galera! Ou seja, a mensagem que fica é que em sua caminhada em direção ao sucesso você tem que fazer amigos e ajudá-los sempre que preciso. Um ajuda o outro e todos se dão bem!

PAUSA DRAMÁTICA: conheço pessoas que matariam para ter esses sapatos altos sem salto toda trabalhado na pedraria! Né, Lu?!

Há uma rápida menção sobre a Gaga indo fumar no banheiro e depois jogando os cigarros fora, como que dizendo que a personagem parou de fumar para fazer sucesso. Na verdade, quem é fã sabe que essa cena refere-se ao fato dela ter parado de cheirar coca, pouco antes da fama. Sabe-se que ela curte apenas um baseadinho de vez enquando… (Bicha Maconheira curtiu isso).

Ao fim do clipe uma rápida sequência de cenas  com looks baphônicos de tirar o fôlego e outras fechações evidenciam que a transformação em Gaga estava completa. Eu fui morrendo aos poucos com esse muco e esse chapeuzão!

O ritmo da música está rápido e cria um clima de frenesi aliado aos cortes velozes.

Carros explodem ao ritmo das batidas e a cantora e seu grupo dançam nas ruas. Está em estado de graça. O passado e suas derrotas é destruído e um final feliz se anuncia.

Ela sai de casa com o teclado, entra em um carro e parte, na mão está anotado o endereço da gravadora que produziu – e produz – a cantora e um horário, ou seja, é o momento em que abandonou NY em direção a LA em busca de seu sonho, provalmente para uma audição. IUPIII!

FADE TO BLACK! Ao final vemos a imagem da Mommy Monster sentada em seu trono de glória cercada por fogo de todos os lados. Enfim, vitoriosa e sambando na cara de todos que não acreditaram nela! Happy End, darling!

E se você ainda não assistiu ao clipe, #ficaolink:

Espero que tenham gostado! Muah.

Análise semiuótica de álbuns fechativos: ‘Born This Way’ da Lady Gaga


Não tem a expressão ‘babado, confusão e gritaria’? Pois então, nada define o novo álbum de Lady Gaga tão bem. ‘Babado’ porque tem um monte de fechações, efeitos bem aplicados e letras abusadas. ‘Confusão’ porque  mistura várias referências e mixa vários ritmos e texturas diferentes de coisas bem tradicionais até os mais vanguardistas experimentos indies de música eletrônica. ‘Gritaria’ porque a racha tira voz do koo e grita muito mesmo (coisa que ela adora fazer).

Sem dúvida é o mais autoral e ousado da artista. Com ele, o universo particular de Gaga se delimita ainda mais tornando-se bastante concreto e reconhecível.

Neste trabalho, ela flerta com com um lado bastante obscuro, ela está ‘casando com a escuridão’, como diz na canção que abre o álbum. Para isso aproxima-se do rock’n roll, em muitas faixas em seus estilos mais pesados. Muito antes de ser lançado, já se imaginava isso pelo que se havia sendo dito por seu produtor e por alguns ícones do rock como a banda Kiss e OzzyRecentemente, a própria cantora falou de seu encantamento pela banda Iron Maiden. Ao mesmo tempo a batida eletrônica está mais presente do que nunca, porém muito mais ousada: cheia de ruídos, distorções e sobreposições interessantes e surpreendentes. São infinitas camadas sonoras que o fã é convidado descobrir ao longo do trabalho. Ao que parece, há a presença do trabalho de experimentação de outros artistas desta casta.

Pessoalmente, acho o álbum pouco pop em relação aos trabalhos anteriores, o que pode ser bastante arriscado, apesar de sincero e autêntico, por outro lado. Com ‘Born This Way’, Gaga provavelmente perderá todos os fãs que a buscavam apenas por seus looks fechativos, até porque ela tem cada vez mais se desmontado, entretanto cativará ainda mais quem a segue por sua música criativa.

Vamos avaliar e comentar faixa-a-faixa este bapho, então?! Bota o fone de ouvido, aumenta o som e se joga bunita:

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1. Marry the Night

A música funciona super bem como introdução do álbum e é quase como que uma profissão de fé: fala sobre o flerte que a autora fará com seu lado mais obscuro para passar sua mensagem de liberdade. É divertida e dançante, daquelas que dá vontade de cantar junto pulando e rodando ao som das batidas.

2. Born This Way

A gente está quase  surdo de ouvir esta. Foi a primeira lançada e já tem videoclipe. Está no meu top 3 do álbum. Além de ter uma batida bapho, tem a letra mais foda do álbum por congregar várias mensagens que a cantora sempre quer passar: liberdade, auto-estima, tolerância as diferenças, causa LGBTT. Tem o trocadilho genial que amo: “Don’t be a drag junt be a queen”. Ah vá! Vai me dizer que a senhora resiste a dublá-la e fazer a coreô?

3. Government Hooker

Também está fácil no meu top 3 e é forte candidata a minha preferida. Ela é estranha, tem uma introdução debochada (“Gaga, GagaaaaaAH!”). Vão mudando a voz da cantora eletronicamente ao longo da canção de forma a tomar vários timbres diferentes. Tem um momento que a voz dela fica i-go-al a da Madge (2:48) e em outro igual da Nonô Spears (2:11). A música é uma crítica sarcática as “prostituídas” pela industria fonográfica. Mas as bees – conhecendo como eu as conheço – darão outro sentido. Tipo eu que sempre canto “P*ca na minha boca” em vez de “I wanna PIIII government hooker

4. Judas

Outra que já ouvimos bastante e também já tem clipe. A batida é pesada e seca – parece que vão rasgar a bateria. è também bem barulhenta sendo um pouco enjoativa a longo prazo. Minha parte preferida é o trecho incidental (a partir de 2:41) em que mixam a voz da cantora em tom grave e agudo. Cool!

5. Americano

A música de tema latino do cd é quem completa minha tríplice de favoritas. É uma mistura louca de ritmos latinos tradicionais e cafonas com uma batida eletrônica sen-sa-ci-o-nal. A letra tem caráter político, é uma espécie de lamento dos imigrantes ilegais nos EUA. Parte é cantada em inglês, parte em espanhol. Amo o trecho que fala “Chicos” e vem uma respostazinha aguda dizendo “Chicas” (02:25). Reparem: começa com uma arma sendo engatilhada e termina com um tiro.

6. Hair

Achei chata e sem graça. Uma pena porque a letra é até legal. Especialmente quando diz que é ‘livre como seu cabelo’.

7. Scheiße

‘Scheiße’ quer dizer ‘merda’ em alemão, coisa que esta faixa não é (!). Parte da música é cantada na língua germânica e Gaga, sempre muito debochada, começa-a dizendo que não fala alemão, mas que pode se a gente quiser. São muito gostosos e divertidos os fonemas da frase repetida infinitas vezes (tente repeti-la, a língua faz uns movimentos saborosos). Já a conhecíamos em versão remix do desfile de Mugler com o Zombie Boy, lembram?

8. Bloody Mary

Ai, amo esta! Ela é deliciosa! É daquelas que a gente sente: na boate fecha os olhinhos, dança rebolando lentamente e esfregando sensualmente as mãos pelo corpo. Os sons incidentais são um show a parte, especialmente umas vozes que lembram canto gregoriano e o gritão que ela dá. A letra é belíssima, é Maria Madalena cantando seu amor. “Nós não somos só arte para Michelângelo esculpir/Ele não pode reescrever o ápice/do meu coração enfurecido“, diz a letra. Só eu que ouço ela falando “Liberdade, meu amor!” em português no final da música?

9. Bad Kids

Tem um espírito rock’n roll – ouvimos a guitarra elétrica e suas distorções – apesar de ser bem eletrônica. Música gostosinha, bacaninha. Assim mesmo, no diminutivo.

10. Highway Unicorn (Road to Love)

É boa.Tem unicórnios, pôneis, sutiã e bebedeira na letra. O ‘Run run with her t‘ é um prato cheio para um remix bapho.

11. Heavy Metal Lover

Outra que tem uma batida gostosa. Adoro o “ooh-ooh-ooh-who-who”, especialmente na parte tunada (03:04). Tem essa coisa mais modernex da música eletrônica mais indiezinha. Na letra, Gaga faz a bad girl com um bad romance.

12. Electric Chapel

É retrô que você quer? Então toma, querida! Porque essa música respira ares oitentistasBARRAnoventistas. E num clima dark. Ao mesmo tempo com uma coisa de pop japonês. Enfim, misturinha boa que a gente gosta.

13. You and I

É a música melódica do álbum. Sabe aquela que a Gaga vai sentar no piano e se rasgar toda cantando? Então. É a nova ‘Speechless‘. Não curti.

14. The Edge of Glory – 

Corram é música chiclete! Mentira que eu amo! É a atual música de trabalho dela e está pra sair um clipe da faixa. Já é chamada carinhosamente pelas bees como “o edí da glória”.Vamos ouvir MUITO essa faixa nas baladas e envolvidos por seu ritmo cativante. A fatida é foda, o sax é foda. Dá vontade de pular todas juntash cantando bem alto e bem forte (vamo lá, gentchy!): “I’M ON THE EDGE OF GLORY!