Todos os fogos o fogo


Por Aloe Vera

Eu ainda me estranhava com o Rio — e a cidade comigo — quando conheci ele. O cabelo um pouco ralo, acima da testa, o rosto bonito, uma risada meio asmática. Tinha acabado de ser cuspido pelo fogo. Carregava a pele, em grandes porções, em luvas e compressas que, nunca soube como, deviam cozinhá-lo ainda mais naquele calor esquisito em pleno agosto. Me disse seu nome, desconfiei que era falso.

Veio me contar, dois encontros depois, que não se chamava assim, mas nem se deu o trabalho de me apresentar as digitais e assinaturas de sua identidade. Não que se fosse necessário. Ele — e tão somente o chamarei dessa forma — havia me perguntado, no dia anterior, se me incomodava com a pele retorcida e a marca de uma traqueoscopia, amarela e pálida, que se escondia sobre a blusa xadrez verde escura e seus botões — todos eles — aninhados.

Eu, na caligrafia do meu corpo, também tenho os meus garranchos. Sob a minha pele se escrevem diversas cicatrizes, algumas estrias, as veias se erguem — esverdeadas como a sua blusa — nas articulações em que ela se estende ainda mais esbranquiçada. Olho meu corpo, nu, em frente ao espelho e observo todas as minhas marcas. Ele, no reflexo, vê todos os fogos. A pele é quente, úmida, irritadiça como um temporal que marca as tardes abafada de verão.

Os verões que se estenderam por nós, se fizeram entre alguns beijos tímidos e uma cama velha, que rangia bastante, naquele apartamento apertado que o dinheiro me permitia alugar em Copacabana. Era num prédio de má fama, como os nossos corpos que não são dessas pessoas que, como lagartos, exibem os dorsos ao sol de Ipanema. São corpos comuns, papéis esquecidos dentro de uma gaveta, mapas antigos em que se inscrevem as fronteiras de países que já nem existem mais.

Todo corpo tem a sua cartografia, posta à prova pela ponta dos dedos, a superfície da pele, a aspereza da língua. A carne levanta-se e se dilui em certo ponto ou outro, enche-se e esvazia, num exercício topográfico que levanta, sob os ossos, um jardim suspenso de prazeres e tesouros desconhecidos prontos a serem descobertos entre lençóis e mordidas. Algumas barrigas erguem-se como vulcões extintos, as pernas esparramam-se como grossos pântanos. Em outro, comprime-se as cláviculas e navega-se sobre fundas depressões em que se deposita saliva e desejo.

Em vão vamos tentando redesenhar nossos mapas, descolar nossos tesouros de certas partes para esculpi-los como totens, carrancas, em músculos que precisam ser exatamente construídos como os livros de anatomia. Aos poucos, vamos descobrindo que todos os esforços são desnecessários. Nossos corpos são inúteis, vagabundos. Tem estrias, queimaduras, celulite, a pele ora é macia e ora áspera. Craveja-se de pontos pretos, de machucados, de arranhões.

A felicidade não consiste no corpo impossível, mas no que se faz possível a nossa frente. Naquele se dispõe a abraços, amassos, fluidos, encontros e dispersões. Todos nós fomos mastigados, cuspidos, escarrados pelo fogo.

Até sobrar só as cinzas.

Aloe Vera é correspondente internacional do Babado Certo no Rio de Janeiro.  Escreve sobre a cidade (que só tem viado), as distâncias de Vitória e as dores e delícias de encontrar Renata Sorrah na fila do cinema. Entre em contato com ela por meio de mesa branca, baralho cigano ou do e-mail a.loevera@outlook.com.

Sushi no Leblon


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Observando a vida amorosa no Rio de Janeiro, cunhei a expressão “paradoxo do sushi do Leblon”.

1. Você conhece alguém e logo vem o convite para sair. Embora haja variações, o programa padrão é geralmente “um sushi no Leblon”;

2. Quando a pessoa te chama para comer “sushi” no abastado bairro do “Leblon”, você já pensa nas seguintes possibilidades: a) é rica; b) se não for, está pré-disposta a gastar com você”;

3. Só que você é pobre: não tem dinheiro nem para o ônibus, muito menos para pegar um táxi para o Leblon;

4. Leblon não tem metrô, logo você não consegue se assumir como COSMOPOLITA e justificar o porquê de estar chegando em um encontro neste charmoso meio de transporte;

5. Agravante: não só pobre, mas como eu, com paladar de pobre. Você detesta comida japonesa;

6. Você repensa sua vida e pensa se não é melhor morar em Nova Iguaçu;

7. Você pega um BRS para chegar no Leblon, manifestado pelo medo de ter que rachar a conta e seu cartão dar “não autorizada”;

8. Chama para ir na Praça São Salvador, para um programa alternativo. Sem sucesso;

9. Você vai. Segura a ânsia de vômito na hora de comer o sushi, desce dois pontos antes para pegar um táxi e não chegar tão por baixo, evita pedir bebida para a conta não ficar cara;

10. Chega a conta. A pessoa não se mexe. Passa um filme na sua cabeça. Você abre a conta. Pensa em quantos pratos vai ter que lavar por aquele sushi.

11. Você, ainda assim, resolve investir. Paga a conta. Chama a pessoa para um momento mais íntimo. Dá aquela espreguiçada e abraça a pessoa;

12. A pessoa desvia. Diz que a noite foi ótima. Que ela já está indo, mas que gostaria de te ver de novo. Nota: “vamos nos ver de novo” significa “nunca mais, meu amor”.

13. Já passou de meia noite. Você tem que pegar um táxi.

14. O motorista aceita o cartão. Mas dá não autorizada assim que você chega em casa.

15. Você diz que tem dinheiro lá em cima. Sobe. E NUNCA MAIS DESCE NA SUA VIDA.

16. Você passa quinze dias sem pegar táxi para não correr riscos.

17. Mesmo nessa maré de azar, aparece uma pessoa maravilhosa na sua vida. Ela vai e te chama para um sushi no Leblon.

18. Volte para a fase 1.

Aloe Vera é correspondente internacional do Babado Certo no Rio de Janeiro.  Escreve sobre a cidade (que só tem viado), as distâncias de Vitória e as dores e delícias de encontrar Renata Sorrah na fila do cinema. Entre em contato com ela por meio de mesa branca, baralho cigano ou do e-mail a.loevera@outlook.com.

O primeiro encontro


A pessoa que inventou o Tinder com certeza consegue comprar Rivotril sem receita, porque chega uma época da vida em que a gente perde a mão nesse tal de “primeiro encontro”.

Sofreríamos, todos, de polidctilia se fôssemos contar as vezes em que a gente tentou em vão controlar a ansiedade e não parecer à beira de um ataque de nervos ao encontrar a pessoa num botequim qualquer em Botafogo.

O cérebro já sabe da cilada e sabota a gente.
Mas é para o nosso bem, eu creio.

A gente troca meia dúzia de palavras meio atravessadas e decide que não só o silêncio precisa ser constrangedor, mas tudo em si deve ser instrumento de nossa vergonha.

Invariavelmente todos os nossos segredos mais íntimos, as conjugações incorretas de todos os verbos, algumas pedras nos rins vêm à tona exatamente no momento em que seria perfeito ficar calado e apenas acenar para o garçom trazer a conta.

A gente idealiza tanto esse momento que algumas pessoas até questionam, no campo da ética, se é de bom tom dar ou não no primeiro encontro.

Gente, faça-me o favor, eu nem sei se vou sobreviver ao primeiro encontro.

Esses dias eu tive mais um deles e deixei meu cardiologista ciente que eu poderia ter um pequeno AVC nas próximas horas.

Botequins lotados, sessões de cinema esgotadas, a incapacidade humana de se jantar num restaurante sem reserva, os meteoros que insistem em não cair para aniquilar a humanidade quando se é mais preciso.

É nesse momento que você entrega tudo na mão de Deus e decide fazer um programa caseiro com aquele ser humano que você acabou de conhecer e, mesmo não acreditando em uma força maior que rege o universo, não vê mal em abaixar a cabeça e fazer uma pequena oração para que na manhã seguinte você não acorde numa banheira cheia de gelo e num corpo vazio de pâncreas.

A gente se esbarra no sofá.
Sabe, ele até que é legal.

A grana é curta e não dá pro telecine.
Deixa pra lá, SBT nunca me deixou na mão.

Casablanca. Dublado. Quase no fim.
Ele diz: “a gente podia pedir uma pizza”.

Calabresa. Com cebola.
“Posso tirar o sapato?”

Às vezes as coisas dão certo e a gente não vê.
Velhos conhecidos de uma noite só.

A gente engrenou uma conversa meio boba, duns livros que a gente leu em comum.

Deu certo, mas perdemos o fim do filme.
Não lembro ao certo como era, mas terminava meio assim:

– But what about us?
– We’ll always have… pizza.

Aloe Vera é correspondente internacional do Babado Certo no Rio de Janeiro.  Escreve sobre a cidade (que só tem viado), as distâncias de Vitória e as dores e delícias de encontrar Renata Sorrah na fila do cinema. Entre em contato com ela por meio de mesa branca, baralho cigano ou do e-mail a.loevera@outlook.com.

III Seminário Nacional “Educação, Diversidade Sexual e Direitos Humanos”


BORA ESTUDAR, PIRANHAS!

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Êta! Êta, êta, êta. É a lua, é o sol é a luz de Tieta.


Há alguns dias cheguei no pequeno aeroporto que rodeia Vitória, com meu derrière maculado por uma hora e vinte minutos de viagem num avião apertadíssimo com a calça de suplex que utilizo nas aulas de lambaeróbica. Claro, minhas madeixas estavam cobertas por um belíssimo véu de seda colhida por famintas crianças laosianas, mostrando que não importa qual o seu grau de escolaridade ou quanta grana você tem no banco: no fim das contas, qualquer pessoa que sai de uma cidade pequena para uma grande metrópole sofrerá da síndrome de Tieta.

Para quem não sabe, a síndrome de Tieta acomete todo mundo que não se comportava o suficiente para ser bem falada em sua cidadela e que, na metrópole, passa a girar mais Pião do Baú nas tardes dominicais do SBT. Em suma, essa síndrome atinge todos aqueles que percebem que no meio de onze milhões de habitantes, tem homem o suficiente para você fazer a Joyce Pascowitch e não repetir no dia a dia.

Disfarçando minha devassidão para essa cidade que sempre quer saber com quem você se deita, cheguei lembrando dos meus dias ensolarados em que me olhava no espelho e estava vestido à imagem e à semelhança de Taylor Swift. Uma das coisas que mais me tem incomodado, como Tieta recém-chegada para o carnaval, foi um casal de amigos tendo que se esconder para dar um beijo, desses beijos quaisquer, no meio do carnaval.

Foi aí a deixa para deixar de lado o meu véu costurado por velhas caolhas cujos cabelos brancos brandam com os ventos das planícies vietnamitas: se existe, no fundo, um efeito colateral da síndrome de Tieta este é o de destruir todo o conservadorismo e o moralismo que se escondem pelas caras feias e as palavras sem sentido desse estado que te obriga a engolir sua santidade até no nome. No entanto, por mais que eu pesasse a mão e fizesse a cabeça dos meninos, nada aconteceu. Pois é, Tieta, “tem que se esconder no escuro que na luz se banha”.

Pouco depois, o puxador do bloco anuncia em cima do trio que um menino tinha apanhado de um valentão pelo simples e único motivo de ser gay. E aí seguiram-se as repreensões, os bons-mocismos, as pessoas vaiando a opressão por um segundo. Lindo, não? Não. Aprendi a ser Tieta e, como Tieta, quero ser muito mais do que demonstrações pontuais e instantâneas de um apoio que se esconde nos sorrisinhos bestas dessa terra onde a dor é grande a ambição pequena.

Tieta, grande inspiração para minha vidinha. Afinal, sair de uma cidade pacata e hipócrita eu sei bem como é. Voltar para ela, amadurecido e cheio de ideias, eu também sei. 

Tieta, emulando a Kátia Cega, mostrando como não está sendo fácil.

Chega de fingir, de mentir, né, gente. A gente sabe que quem mais goza e pena é que serve de farol para ver se ilumina um pouco esse arquipélago à beira-mar. Enquanto aqueles dois meninos, meus amigos, precisarem se esconder para dar um mísero beijo, sua vaia, seu apoio, sua mísera comiseração não me serve. E nem desce pela minha goela. Meu amor, já vivi de tantas migalhas nessa cidade que hoje, como Tieta, não quero meus farelos. Quero muito mais.

Aprender a ser Tieta não é fácil. Mas é preciso. Eu, que sempre me dei bastante a timidez, deixei as bochechas vermelhas e os olhares de repreensão no primeiro farol, no primeiro cruzamento que encontrei pela minha frente. Não pensei duas vezes quando vi aquele menino bonito numa estação do metrô, perdido, olhando e sorrindo pra mim. Podia ter feito tudo, ter esperado. Reencontra no outro dia. Esperar a próxima vez.

Acontece que quando você está cercado de onze milhões de pessoas, não existe a opção do reencontro fortuito. Talvez, seja essa a maldição que paire sobre essa ilha. A dança silenciosa, esquecida pela poeira e o mormaço, dos pequenos esbarrões que se tem com o objeto de desejo pela cidade pequena. Foi ali, no metrô, que virei Tieta. Encostei no ombro do menino e falei: “você tem uma estação para me dar seu whatsapp e descobrir que sou o grande amor da sua vida”.

Ele é meu homem e eu sou sua mulher.

E assim se seguiu uma tarde nada produtiva no trabalho, com milhares de mensagens trocadas com o menino. Vieram as tardes produtivas na feirinha gastronômica, andando de mãos dadas, tomando os picolés e dando beijos à luz do dia, sem os olhares e sem os pudores das senhorinhas irascíveis que frequentam padarias que chamam afetadamente de boulangerie.

Talvez, alguns de vocês protestarão sobre a facilidade de percorrer esses caminhos quando todos já estão abertos. Não deixo de me gabar de como São Paulo tem sido doce e de como cada vez mais as lâmpadas tem se tornado apenas uns instrumento de iluminação e perdendo a sua aplicação prática de rachar algum cocoruto desavisado na Rua Augusta.

Creiam, amigos, que não é fácil. Também não vai ser nem um pouco fácil abrir picadas e caminhos por essa Santana do Agreste perdida entre o esquecimento e o minério de ferro. Ninguém disse que a vida é fácil. Mas, meu amor, existe alguém em nós, em muito dentre nós esse alguém que brilha mais do que milhões de sóis. É preciso brilhar, ser o próprio sol, existir a luz do dia. A escuridão só tem fim quando a gente constrói a própria aurora.

E, bem, o menino do metrô me deu um perdido. Reapareceu dias depois, sentado na porta da minha casa, depois de uma pequena discussão pelo celular, com um sorriso no canto da boca: “já não tem mais metrô, vou ter que ficar aqui”.

E ficou :).

(Ele, ainda, me deixou com uma marca roxa no pescoço por uma semana. Disse que era pra eu aprender a ser menos arredio e que agora, não tinha jeito, era dele. Dias depois, vi ele pegando um outro alguém naqueles bares ali perto da USP, na porta de casa. Meu amor, Tieta veio, baixou e fui lá alertar o outro menino, mostrando o chupão no pescoço: “cuidado, amigo, que isso aí não tá vacinado não”. Pois é, a vida tem sido boa, mas nada fácil pra Tieta).

FW: FW: FW: EMOCIONANTE O que aprendi fazendo bolos.ppt


Acabo de cortar meu dedo com uma pequena faca enquanto tentava fazer um bolo.

Não que seja de extrema necessidade ou relevância compartilhar toda essa informação. Acontece que a vida é feita de tanta coisa pequena. Na verdade, às vezes vem a certeza de que a vida é simples como fazer um bolo. A vida é cheia dessas grandes questões de química, de se escolher os ovos frescos, a manteiga, todos os gostos, recheios e coberturas açucaradas.

E, às vezes, a gente vai lá, tropeça e sola toda a vida. Toda a mistura, as colheres exatas, os gramas contados de farinha – peneirada para não ficar numa pedra -, tudo se amontoa devagarinho no tabuleiro pra gente, com pressa, ir lá e estragar tudo de repente. Ansiedade, né. Hoje, mais cedo, solei meu primeiro bolo de fubá.

Aprendam, nunca me abram o forno antes dos primeiros vinte minutos. As coisas podem e vão dar muito errado. Eu deveria ter dado aos meus bolos toda a calma que ando dando pra minha vida. Há um mês que não apareço mais aqui. Há, também, um mês exato que mudei de cidade e que tenho me desesperado ao esquecer uma meia dentro da roupa suja. Por isso, tive toda a calma do mundo em escrever esse texto.

E tive toda a calma do mundo para voltar aqui.

Pisei em Vitória, de volta, no meio do carnaval. Completamente perdido, esquecido das linhas de ônibus e do nome das praias. Escrevo, aliás, da cozinha em que frequento desde pequeno e que me fez crescer entre o pó royal e fermento biológico que se esconde nos cantos mais profundos dos azulejos. Agora, com o dedo enfaixado e com o segundo bolo no forno, posso sentar e me dedicar à pilha de livros, de texto para passar a limpo e ao blogue.

Não, não que tenha exatamente voltado. Até porque minha antiga máscara está bem guardada, pois enfim é quarta-feira de cinzas e é hora de deixar pra lá tudo o que em si é falso ou que não nos pertence mais. Falo, agora, com a própria voz. E, assim, continuarei. Então, deixemos a Tchynna de lado. Ainda não lhes darei meu nome, assim, com facilidade.

Claro, se pudesse escolher meu nome, escolheria funcho. É, erva-doce. É com ela que se faz um bolo de fubá, daqueles fofos, com um pouco de goiabada no meio. Pois é, eu sei, fiquei perdido na década de 1970. Tô até hoje esperando voltarem com a embalagem de celofane do Alô Doçura. Enquanto não voltam, eu fico aqui com vocês. Na espera.

Gif motivacional de blogueira virtuosa fazendo um desabafo pessoal para suas alvoroçadas leitoras que bebem leite de amêndoas

Um beijo enorme,
Aloe Vera.

O beijo que pesa como uma bomba


Beijo Felix

Parecia final de Copa do Mundo, Brasil e Argentina. As bichas todas reunidas em volta da televisão, tomando uma cervejinha e comendo uns quitutes. Toda vez que o Félix e o Niko ficavam um pouquinho mais juntos todo mundo gritava ao mesmo tempo, uma loucura: “AI, MEU DEUS, AGORA VAI!” “VAI, VAI, VAI!”, “BEIJA LOGO, GARÁLEON!”. Um nervosismo…

[Afinal era o final da novela Amor à Vida e pela primeira vez a emissora de TV mais popular e tradicional do país, a Globo, havia dado sinais de um possível beijo entre dois homens em uma de suas novelas – verdadeiros monumentos da cultura de massa nacional – o que até então era um tabu (em 2005, na novela América, um beijo gay chegou a ser gravado, mas foi vetado de última hora). Ou seja, bizarramente, era um momento histórico na televisão do Brasil, desses de contar pro netos, “eu tava lá”, quando reexibido na retrospectiva de 2050].

Ai foram todas aquelas cenas de final de novela, gente casando, gente parindo, gente reunida e festejando… As gueis ansiosas, viravam especialistas em teledramaturgia e ficavam comentando os furos no enredo, como o naquela cena bizarra dos comparsas da Aline entrando com um bolo (um bolo, gente!!!) INTEIRO, ENORME, dentro do presídio! rs. Todos ficaram chocados (desculpa pelo trocadinho infame) e amaram a morte da vilã. Foi inédita e inovadora. Depois veio aquele monte de cena de perdão ao Félix. No fim das contas, o enredo na novela tornou-se a redenção desse personagem.

O capítulo da novela já ia para mais de duas horas, quando Félix e Niko, na sua casa de praia riquíssima – onde moram com seus filhos e com o Cesar, pai do ex-vilão -, ficaram sozinhos… Aquela tensão já tomou toda a sala, ficamos todos em silêncio, mãozinhas dadas, vidrados na telinha. Os dois se aproximaram e o personagem do Thiago Fragoso passou os bracinhos em torno do pescoço do personagem do Mateus Solano. Já pensei: se for para ser vai ser agora. Um misto de esperança e de ódio me consumiu, pois se com aquela ação eles ainda não se beijassem seria muita filhadaputice da Globo.

Os dois se entreolharem, cada um com a cabecinha levemente virada para o lado e Félix disse emocionado: “Eu não vivo sem você, Carneirinho”. Daí eles foram se aproximando e…

*BOOM*

*BOOM*

Os viados ficaram loucos. Gritavam, pulavam, soltaram fogos. Todo mundo saiu na varanda ensandecida fazendo barulho comemorando a grande vitória. PUTA QUE PARIU!!!!! Filmei nossa reação quando houve o beijo, cata, mona:

Como esperado, o beijo caiu como uma bomba no país. As redes sociais foram tomadas de reações a cena. Muitas positivas e lindas! O dia 01 de fevereiro acabou virando o Dia Nacional do Beijo Gay. Uma onda de amor tomou o país! ❤ Pessoas se abraçando, dando beijaços, compartilhando mensagens de respeito e defesa a homoafetividade. Muitos perfis do face foram trocados pelo frame da cena do beijo. Foi coisa linda de se ver.

No outro dia TODOS os reacionários nacionais e locais estavam aos jornais esbravejando, ameaçando (alguém me explica porque quando o tema é gay NECESSARIAMENTE a fonte ouvida é um religioso cristão?). Quanto mais eles ficavam nervosos mais as gays gozavam de amor e alegria:

Um dos melhores tuítes, aos reacionários foi este:

E claro, teve autor de novela que ficou queimadíssimo. Lembram disso:

Aguinaldo Silva Sobre Beijo Gay

“Tá feio, tá eshcroto”

É aquilo, né, quem nasceu para Clô, nunca vai ser Félix. Beijos, Gui!

Enfim, algumas considerações sobre o beijo:

  1. Foi tardio: o fatídico beijo-gay-na-novela-da-Globo veio super tarde. Tão tarde, mas tão tarde que nem soou mais como algo revolucionário, moderno, etc. Não havia nada de avant-garde nele. Soou mais como uma corrida atrás de um tempo perdido, a emissora perdeu o timming da mudança de costumes na sociedade e transformou a coisa em algo muito maior do que precisava ser. Mas, antes tarde que nunca, né?
  2. Foi elegante: a Globo cumpriu o que prometeu. Querendo agradar gregos e troianos, a cena foi exatamente como anunciada, não foi apenas um selinho chocho, mas também não foi um beijão de língua ultra-erótico. Ficou uma cena de bom gosto que não fez ruir a tradicional família brasileira.
  3. Foi político: é ingênuo acreditar que não há articulação entre política, afeto e cultura de massa. Os discursos estão aí circulando e modificando a sociedade. Cenas como essa vão naturalizando as relações LGBTs e, se não aprovadas, pelo menos estimulam o respeito às diferenças.

O mais lindo foi que logo após o beijo veio aquela cena lindíssima do Félix e do César, observando o pôr do sol, ambos se perdoando. Foi lindo pois lembrou a todos – logo depois do beijo – que o gay tem uma família e que muitas vezes ela é, antes mesmo da sociedade, seu próprio inferno particular. Acabou que essa cena foi mais importante e emocionante que o próprio beijo e deu a sustentação afetiva para a cena anterior.

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Foi um final de novela lindo como a muito tempo não se via. É inegável que a cena só ficou tão perfeita e emocionante (quem não chorou tem uma pedra no lugar do coração) graças ao talento, experiência e sensibilidade de um Mateus Solano e de um Antônio Fagundes. Para vocês entenderem o peso que a cena teve leia esse relato de um gay a uma colunista do IG (um dos vários que surgiram na rede):

“…estavam todos na sala… eu no sofá quando o Felix beijou o carneirinho… Silêncio… Fiquei quieto também pra não dar motivos, embora estivesse fazendo a drag por dentro… Mas a cena final, do Felix e do César, eu não aguentei, veio um choro descontrolado que estava preso esses quatro anos que não falamos direito.., estava total descontrole… dai veio minha mãe com a cara  inchada de chorar me abraçar e meu pai do outro lado segurou minha mão e pôs a mão em volta do meu ombro… Não falamos nada! Na hora de dormir, o Felipe (irmão) entrou no quarto, deu a mão e quando eu ia apenas apertar, ele me puxou, deu um abraço e disse que ele sempre vai ser meu irmão. E chorei de novo… Pela primeira vez não dormi no inferno” (FONTE).

Nossa, para nós blogueiros gays foi um alívio agora toda a vez que começar uma novela com personagem gay não vamos precisar ficar perguntando “será que vai ter beijo gay bla bla bla”. Nossa, tirou um peso das costas. rs

Mas a luta ainda não acabou, minha gente: queremos agora um beijo gay numa novela BOA! rs #fikadika, João Emanuel Carneiro!