Para você, meu amor, que fez black block do meu coração


Era junho e eu estava longilínea como uma pintura de Botero na minha chaise longue, regojizando meu corpo com um alvíssimo frasco de Monange. Enquanto o relógio na parede soava três da manhã, eu me esticava pela madrugada como uma pantera negra até o meu criado mudo, gentilmente batizado de Neide, em busca de um frasquinho de lustra-móveis que eu uso como hidratante para minha perna mecânica. Foi aí que minhas unhas em gel titubearam ao menor encontro de meu iphone gradiente e eu resvalei minha face sedosa diante de uma mensagem de ligação perdida.

Achei que estavam me passando um Trótski

Era ele. A gente se conheceu em meio a uma nuvem de gás lacrimogêneo, causada pela incapacidade humana de lidar com esta beleza vândala que exala de meu rosto. Abri caminho pela confusão, ricocheteando as balas de borracha com meu piercing genital, só para oferecer um pouco de vinagre (e outras coisas mais) para acalmar aqueles olhos verde-esperança-de-um-mundo-com-mais-justiça-social atingidos por um spray de pimenta.

Dei um retoque na minha maquilagem para estabelecer um padrão de beleza mais próximo do vandalismo

Seu infortúnio foi minha glória, pois com a visão prejudicada, ele não pode perceber que naquele momento eu já havia andado tanto que estava com meus pés inchados como uma picanha no alho, tão grandes que quando eu sentei ao seu lado parecia uma versão transexual do abaporu.

O problema é que quem procurar a minha Tarsila do Amaral, vai encontrar um Romero Brito no lugar.

Meu amor, se você nunca provou, eu só te digo uma coisa: o boy marxista é uma iguaria em extinção como o foie gras. Como resistir àquelas barbas maravilhosas, cabelos desajeitados, um corpo escandalosamente hirsuto que se entranha com o seu e em poucos segundos já mostra que sabe usar o seu bolchevique na hora do menchevique.

Com seu coquetel molotov, ele colocou minha bacurinha em chamas

Só sei que consumamos nossos amor ali mesmo. Ele me jogou numa caçamba de demolição e provocou uma revolução russa no meu corpo. Levantou rapidamente a sua cortina de ferro e estatizou minha economia, deu cinco planos quinquenais sem sair de cima da minha Iugoslávia. Só sei que quando tudo terminou eu estava lá com minha chechênia tão em chamas que eu passei pelo menos duas semanas com uma arroba no lugar das minhas partes íntimas.

Durante esse tempo, chamei carinhosamente minha amiguinha de Lola Aronovich

Com minha expressão sexual transformada em x a cada marcação de gênero, me restou apenas voltar para minha casa, fazer um escalda pés e aguardar que ele me ligasse para que eu pudesse ver mais uma vez a sua estátua pessoal de Lênin. Bem, acontece que nesse meio tempo eu fui ficando enjoada, minhas regras atrasaram e eu só podia pensar em uma coisa.

Enjôo e desejo de comer jaca cristalizada só podem ser sinônimo de uma coisa: gravidez.

Marcamos de nos encontrar numa roda de tambores que acontece ali na Ufes, laqueada por uma fogueira que representa o coração em chamas e vivo do marxismo na universidade. Era tanto boy marxista ali reunido que tudo o que eu conseguia pensar era em quem tinha uma foice e quem tinha um martelo repousando sob suas uniões soviéticas. Deleitosa por aqueles homens e embriagada por licor de jenipapo, tomei coragem e fui até o epicentro da comemoração, anunciar aquilo que já tomava como verdade.

ESTOU GRÁVIDA DE LUÍS CARLOS PRESTES E QUERO TER MEU FILHO NO BRASIL.

Rapidamente foi silenciada por membros da KGB que ali estavam presentes e relegada ao esquecimento. Hoje, ele luta pela libertação do Vietnã do Leste e eu permaneço aqui, necessitada de uma vaginoplastia, com o fruto consumado de nosso amor: uma belíssima jarra em formato de abacaxi, uma menina tão bonita, obra prima de meus óvulos de tupperware, que ajuda na renda aqui de casa posando como modelo pra revista Hermes.

P.S: E você? Precisa de ajuda, de um conselho, de dar um jeito na sua vida amorosa? Mande um email para tchynna.turner@live.com e saiba como eu posso te ajudar.

8 comentários sobre “Para você, meu amor, que fez black block do meu coração

  1. Por favor, me avise quando será o lançamento do seu livro. Serei o primeiro da fila de autógrafos. Vc escreve muito bem, seu estilo é único e arrebatador. Perco o ar! Amo seus ensaios! Obrigado!

    • Ain, obrigada, linda. <3. Estou lançando, em breve, meu livro "Enterrem minha mandioca na curva do rio". Aguarde aqui no blog para maish informações. Espero que a senhora continue gostando dos textos e aplicando essa maravilhosa semiótica chamada homossexualidade na sua vida ❤

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