Androginofobia?


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Estou em Vitória desde domingo, vocês devem ter percebido pela minha presença nos comentários. Não postei nada ainda, mas tenho uma boa razão pra isso.

androginia 5Acho que nunca peguei para falar desse assunto aqui no site. Provavelmente porque sempre achei que não interessaria a ninguém, uma vez que é um assunto que envolve um grupo tão pequeno de pessoas que poucos leitores se disporiam a ler sobre.

Mas recentemente estive conversando com uma grande fã do site e ela me sugeriu falar desse tema, pra ajudar esse grupo que, mesmo pequeno, precisa saber que existe gente boa por aí que não nos vê apenas como aberrações de gênero.

Só que vocês devem estar se perguntando:

Por que só agora, depois de 4 anos de blog, Max resolveu falar do que ele tem de mais marcante?

Justifico com a minha viagem a BH que fiz nessa sexta-feira. Como disse NESSE post, não vou mais postar os Babados, confusões & gritarias, e não vou mesmo. Só que dessa viagem eu preciso selecionar uma coisinha pra discutir com vocês.

androginia 3Não tenho essa aparência à toa, e muito menos forço para construí-la. Tenho um probleminha na minha gônada chamado hipogonadismo (você pode clicar aqui pra ler mais) e, por esse motivo, produzo metade da quantidade normal de testosterona de um homem adulto. Daí, não desenvolvi totalmente as características sexuais secundárias masculinas.

Voltando a falar sobre a viagem…

Como estava bem longe da minha cidade, resolvi fazer uma coisa que sempre tive vontade, mas nunca tive coragem: vestir um short pra sair na noite!

Só isso?

Só isso?

androginia 4Hahahaha, calma! Não me julguem ainda! Eu sempre morri de vergonha de vestir shorts, minhas pernas são muito brancas e morro de medo de me desviar da androginia, pelo medo do preconceito e também porque não me identifico como trans. Então, se o máximo que posso chegar é na imagem de uma sapa masculina, tento me manter assim.

Acontece que onde eu ia recebia elogios, inclusive dos meus colegas de sala que viajaram comigo. Desde a padaria onde fui comprar uma cerveja pra começar a esquentar, até os cachaceiros do bar que, mesmo de forma vulgar, não viam a minha imagem como algo ruim.

Entretanto, quando cheguei em Vitória dei de cara com esse comentário na caixa de spam:

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Eu, enquanto sou criticada:

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androginia 2Esqueça a parte que ela viaja na maionese e fala em me processar porque comentei sobre a boate nova que vai abrir em Vila Velha (que amanhã vou postar mais informações quentíssimas) e se foquem no “SER INDEFINIDO” que ela usou pra me categorizar.

De todos os ambientes que já frequentei, e por ambiente você pode incluir até mesmo puteiros, os únicos nos quais sofri preconceito quanto a minha aparência foram nos meios GLS.

androginia 1Por alguma razão, que eu não sei qual é, a maioria dos gays afeminados tem o mais absoluto ódio de andróginos. Digo gays afeminados porque somente sofri esse tipo de preconceito de um único gay masculinizado, que depois fiquei sabendo que ele se arrependeu do que falou e disse aquilo porque era encubado e eu representava a liberdade que ele queria ter, mas não podia (foi perdoado).

E eu pergunto pra vocês, por que todo esse preconceito? Pra vocês terem noção, eu mal posso ter a auto-estima de valorizar a minha própria aparência sem ser criticado por essas pessoas, como se fosse um crime ideológico se sentir bonito tendo a aparência de ambos os gêneros.

De cara muitos podem pensar:

“Max, é lógico, tá muito claro que é recalque, principalmente porque advém de beeshas afeminadas que matariam pra ter sua aparência”

Não! Não podemos ser tão simplistas assim, até porque tem beesha afeminada bombada que ama ser bombada. Acho que isso vai muito mais além.

Tenho duas teorias, uma pensada por mim e outra pensada em conjunto com um amigo meu psicólogo, mas elas não são opostas.

A minha teoria, depois de tantos anos ouvindo críticas, é a de que o gay andrógino representa para esses gays preconceituosos a imagem que eles deveriam ter para que a pinta que eles dão fosse condizente com a aparência.

0000como

Por exemplo, dificilmente sou ridicularizado em ambientes heteronormativos por ser feminino. Isso porque, para essas pessoas, espera-se que alguém com a minha aparência tenha um nível de feminilidade.

Aliás, sou ridicularizado sim quando tento masculinizar meus trejeitos.

Credo, Max, você falou que nem homem agora! Tomei até um susto!

androginia 7Em contrapartida, esses gays que são “apenas” afeminados sofrem muito mais que eu por serem afeminados, e a situação é ainda pior se eles são altos, fortes ou têm uma aparência bem masculina.

Enquanto essa galera é considerada caricata, vide Vera Verão, eu passo despercebido aos olhares machistas porque soa “natural” que alguém com o meu rosto e corpo não seja “macho”, mas não soa natural que um homem com corpo e cara de homem saia desmunhecando por aí.

E indo mais profundamente nesse babado, podemos perceber também um problema com a questão da “identidade” da bicha dentro do seu universo.

Assim como o gay desconstrói a ideia do homem normal e o homossexual desconstrói a lógica da heterossexualidade ser a norma… o andrógino desconstrói e INdefine a afeminada, porque ele vai além e quase toca na linha finíssima que separa a pintosa da transexual. Linha essa que elas lutam o tempo todo pra manter em pé, separando, definindo, categorizando.

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E se o “ser” se define a partir da negação do outro (eu sou isso porque não sou aquilo), o andrógino entra aí como um outro que “é e não é” e, portanto, não pode ser incluído nem execrado, daí tamanha confusão e rejeição.

O andrógino não se encaixa nos padrões estabelecidos e perturba a noção de identidade que demorou tanto tempo para ser construída. Por isso gera tanto transtorno.

Compreendem a lógica? O que pensam sobre esse tema?

53 comentários sobre “Androginofobia?

  1. Vitima social meu cu preto do avesso. Sou vitima de porra nenhuma. Sou gorda, sou feia e sou preta e ainda assim sambo na cara da sociedade.

  2. Talvez essa ideia de dismorfismo sexual entre animais, ex: galo e galinha, vaca e boi etc etc. (que a tia da 5a serie implantou na nossa cabeça) ta ai até hj e aplicamos isso a seres humanos como uma lógica imutável, porem nossa complexidade é maior e não lidamos muito bem com isso.

    Ai um grupo hétero-normativo vê as características e te encaixam como das bixas, enquanto as bixas te isolam para um terceiro (quarto quinto, sei lá) grupo.

    os héteros nos veem como 1 grupo só (bicha, bombada, travesti, sapa etc…). Não veem a diferença, para eles é tudo igual

    enquanto que nós nos sub-dividimos em grupos, pois para a gente é fácil diferenciar uns aos outros.

    acho que é isso.

  3. O texto é ótimo, mas me preocupo com os termos muito especializados.

    Começa em homofobia, continua em transfobia, androginofobia, lesbofobia, homotransfobia e vai… acaba que isso não dialoga com a maioria das pessoas.

    E sim, culturas distintas entram em conflito. Não existe uma palavra que sirva para todo esse tipo de discriminação?

      • “Também acho, mas a gente tem que categorizar de vez em quando pra ser entendido, né?” Max

        Isso que eu pensei durante todo o texto! Eu acho que determinadas pessoas tem essa necessidade de categorizar alguém pra tentar entender, e isso muitas vezes acaba gerando preconceito. Por exemplo! (Um exemplo totalmente alheio, mas que vale). Vou eu no psiquiatra, conversamos por uma hora em 3 sessões e eles me medica. Sem me falar um diagnóstico. eu pergunto “Mas doutor, o que eu tenho?!” – necessidade de categorizar pra entender.
        “Você tem TOC” (rótulo) ” Ai meu deus, então eu sou louca?!” ( preconceito) e acho que isso acontece com quase tudo nessa vida….

        • P.S.: E quando se é andrógino, a pessoa perde um pouco da categorização. Fica inseguro como tratar a pessoa, fica sem entender, confuso.

      • Discriminação, preconceito, tudo isso aí…
        E acho importante categorizar sim. Até pra que cada vez mais esses termos específicos se permeiem por toda a sociedade e não somente sejam conhecidos (e até mesmo desentendidos) dentro do universo lgbt.
        Um bom exemplo de um termo que há alguns anos era bem menos conhecido e utilizado é a própria palavra HOMOFOBIA. E não tô falando só por parte dos HTs não, mas de desconhecimento do termo das próprias beeshas. Se hoje esse termo é amplamente conhecido é porque as pessoas foram se acostumando com ele no cotidiano delas.
        É assim que tais minorias vão ganhando visibilidade e tornam a luta por respeito mais expressiva.

  4. Amo androginia. E acho Max em especial uma pessoa muito bela.
    Também concordo que a androginia perturba a identidade de gênero das pessoas (algumas pessoas)
    Acho que muita gente tem inveja da (bela) androginia por ser algo próximo da angelitude. Dizem que anjos não tem sexo…

  5. A partir de que ponto uma pessoa passa a ser andrógena? e até que ponto vai? creio que tenho aparência infantil. será que as pessoa sabem diferenciar androgenia de aparência infantil?

      • A androgenia se caracteriza pela ausência ou presença de características de ambos os sexos, mediante isso como agrupar uma pessoa que se sabe o sexo, porém se vê semelhança com o outro sexo, ou a pessoa que propositalmente busca ser andrógeno?

        • Andrógino também, cat. Ser andrógino vai além de só nascer andrógino. Você pode se montar assim também, ou usar acessórios e maquiagens que te façam parecer assim 🙂

          • André Pejic é um exemplo disso, quando entrou pro mundo da moda era apenas um menino muito novo que tinha o cabelo grande e era afeminado (meninos brancos nessa idade são sempre muito andróginos). Agora cresceu, perdeu a androginia, e começou a usar hormônios e mais maquiagem pra se moldar no padrão que quer estar. 🙂

          • Hermafroditismo e Androgenia são tabus, desde a invenção dos gêneros, acho que ela deveria ser mais buscada e explorada, não só na parte física, mas também na psíquica, realmente gostaria de compreender a mente de um andrógino, já que androgenia engloba sentimentos e traços comportamentais.

  6. Odeio fazer a puxa-saco da Max toda hora, mas eu adoro androginia. Sou muito a favor de qualquer quebra de papel de gênero.

    Eu não tenho coragem de ser andrógino, mas acho que tenho um baita pé na androginia: tô pesquisando umas saias longas pra comprar (o que mais me deu coragem foi ter visto um menino na UFES que usa, muito divo), também super usaria um salto-alto com jeans e pólo… Tudo sempre com a minha barba na cara (que eu amo).

    O problema é que eu tenho uma mãe que me aceita como homossexual mas já disse que não aceitaria filho travesti, transexual, pitosíssimo, andrógino, etc; eu estudo numa faculdade que não é a UFES e é cheia de pessoas clonadas umas das outras (se fosse UFES, acho que também não seria nada fácil); faço um curso muito tradicionalista e cheio dos preconceitos; e tenho amigos que aceitam o homossexual mas tem todo um nível de ignorância sobre sexualidade ou expressão da personalidade (incluindo amigos que se enquadram na sigla LGBT)… Enfim, tudo ao redor é broxante para qualquer expressão de androginia ou de qualquer mínima diferença do “normal”.

    • Você nunca vai saber se não tentar. Se tem vontade, se acha que faz parte de você, se joga agora pra não se arrepender depois

    • Sabe que as vezes tenho vontade de virar travesti. To falando sério! Mas imagina eu, musculosíssima virar trava?

      Quanto ao seu caso penso assim gata: desde que a senhora tenha dinheiro e não dependa de ninguém pra te sustentar, a senhora pode tudo.

      • PS: antes que venham os bombardeios: eu disse imagina eu agora virar trava no sentido de que demorou anos (e muita grana) pra eu conseguir o físico que tenho… só esclarecendo…

  7. Oi Max tudo bem! É a primeira vez que escrevo mas o acompanho há tempo e percebo que tem entrado em áreas das teorias queer e pós-gênero. Realmente, você tocou num ponto nevrálgico q é essa questão da “feminilidade” e “masculinidade” e as hierarquias sociais que estabelecem as relações de poder. Infelizmente, o ideal de “feminilidade” é permeado pelas questões étnicos-raciais, morfológicas e econômicas(aquisição de apetrechos do universo feminino) para passar por “natural” como está explícito várias vezes no seu texto e como você se alto referencia. E quanto maior o distanciamento que um individuo está desse ideal de “feminilidade” branca, eurocêntrica e com poder de consumo para ornamentar com determinadas roupas, menores são as chances de aceitar sua aparência exterior, e logo uma retalhação para as pessoas que possuem isso. Só uma ressignificação, no meu caso, do que seria ser “feminino” foi capaz de me trazer um pouco de paz e ver o outro com um outro padrão de “feminilidade” diferente do que as minhas. Trocando um pouco de assunto, gostaria muito de conversar com vc pessoalmente na UFES, sempre te vejo mas falta coragem para chegar, e vc está sempre na correria. rsrs 🙂

    • FINALMENTE alguém que conhece teoria queer, pós-sexo! FINALMENTE, Paulo Freire ouviu minhas preces!

      Quero sim conversar contigo, estou todo dia à tarde por entre os IC’s, pode me chamar que a pinta de correria é só pra dar um ar de ocupada.

  8. Max bobo, se vc falar até sobre a nova coleção da bolsa da hello kitty e como combinar elas com uma calça cáqui bege sem ser cafona o povo vai ler, ainda mais se for um tema tão bacana e tão pouco explorado como esse.
    Achei muito valido entrar nesse tema, tanto que fez muito de nós pensarmos mais no assunto. Eu já não me veria sendo andrógeno, tirando o fato de eu ter uma vontade de pintar o cabelo, mas por questão de estilo mesmo eu não acho que eu ficaria um andrógeno bonito, ainda mais que eu gosto de algo mais nerd, mas tirando isso eu super aprovo e queria ver mais gente assim por aqui, pena que não é muito comum onde moro. Se aqui na cidade já estranham minha professora só pq ela usa moicano, imagina alguém todo produzido na androgenia… lampadada na cara seria pouco ‘-‘
    Enquanto o povo não superar o “azul para meninos e rosa para meninas” eu acho que isso vai ser ainda um pouco incomum. E sobre o fato das gays gongarem Max era de se esperar, a pessoa pode estar impecável, as primas irão achar algo para colocar defeito, ainda mais as que têm baixa estima e queriam jogar futebol quando criança, mas os coleguinhas n deixaram pq ela era melhor no vôlei. Fazer o que né, comentar com as amigas e difundir a ideia, acho que é o que da para fazer para acelerar esse processo de acostumar com o diferente.

  9. Querido Max, eu tenho a teoria de que incomodamos pq atraímos ambos os sexos sem fazer esforço para tal, MUAH! rs AMO O BLOG, AMO VC! BEIJOOOOOOOOOOS

  10. Sem polemicas, sem ofensas, só perguntando. Você atribui sua homossxualidade ao seu hipogonadismo? Sou bem feminina e às vezes penso se isso pode se dever ao nivel de hormonios ou mesmo da sua ação (ou bloqueio ou modulação) a nivel de receptor.

  11. acho que, se por um lado a curiosidade impulsiona as civilizações, ‘a zona de conforto’ tranquiliza o ser humano, e diferenças o tiram desse conforto, e dá-lhe pedra na geni. mas mesmo com todo o preconceito ver uma trans já é rotina. daí chega aquela “pessoa” que vc não sabe se é do sexo masculino ou feminino, e pimba, embaralha tudo de novo. e é sempre mais fácil excluir do que compreender, dá menos trabalho.
    outra questão que você tocou é a questão genética, que para uma pessoa comum embaralha mais ainda. roberta close falava que era meio hermafrodita(ou algo do gênero), nany people também fala. fica uma coisa “ai será que é doença…será que pega?!”; e lá vem mais exclusão.

    • acho que dizer-se hermafrodita (que é raro) é uma forma de tentar gritar: ei, não tenho culpa, nasci assim, não escolhi, não sou uma bichinha.

      • Tava conversando isso hoje, dizer que você tem um problema meio que te exclui da crítica, porque põe a culpa no problema, não em você

  12. Muito legal o texto e o blog em si.
    Sempre leio, mas raramente comento por falta de tempo (será?). Mas na psicologia, mas especificamente na psicanálise, explica-se que só nos incomoda no OUTRO aquilo que não está resolvido em NÓS mesmos. Talvez essa discriminação que os andróginos sofram pelos (alguns) afeminados seja isso mesmo que você comentou: aquilo que não está resolvido dentro deles. Há várias hipóteses mas nenhuma certeza.
    Me arrisco a dizer que seja a vontade de possuir tais características e assim não ser discriminado pelo resto da sociedade. Se além de afeminado tivesse as características andrógenas, talvez não sofresse tanto preconceito e/ou discriminação social. Minha teoria. E como já dizia meu tio Einstein, “É a teoria que decide o que podemos observar.”

  13. Eu me encontro numa situação muito difícil. Sou daquele estilo “machão”. Contudo, só me interesso por gays andróginos, afeminados ao máximo e (surpresa?) ativos. Ou seja, além de eu só me interessar por um grupo reduzido, me interesso por um sub-grupo mais reduzido ainda. Não sei o que fazer. Não conheço ninguém com essas características! E sim, já procurei exaustivamente pela internet. Estou vivendo minha vida de forma assexuada e, pelo que parece, vou continuar vivendo assim…

  14. I do agree with all of the ideas you’ve introduced on your post.
    They’re really convincing and can definitely work.
    Nonetheless, the posts are very brief for newbies.
    Could you please extend them a bit from subsequent time?
    Thank you for the post.

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